Gravação expõe convocação de até 1.200 cargos comissionados para formarem o “Exército de Léo”, inundarem redes sociais, abafarem críticas e atuarem como militantes eleitorais dentro da máquina municipal.
Por Jornalismo Investigativo – O Mirante de Teresópolis
Teresópolis, RJ
Um áudio de bastidor que acaba de vir a público escancara o que se desenha como uma estrutura coordenada de propaganda política, manipulação de redes sociais e uso indevido da máquina pública em Teresópolis. Na gravação, uma servidora nomeada em cargo de confiança (CC) convoca um contingente que pode chegar a 1.200 cargos comissionados para atuarem como um verdadeiro “exército” digital em defesa do prefeito Leonardo Vasconcellos e da primeira-dama, Cláudia Vasconcellos.
O material revela táticas de engajamento forçado, blindagem política, controle da narrativa sobre temas sensíveis da gestão — como a crise na saúde e nos hospitais — e o uso do aparato administrativo para fins eleitoreiros e de guerrilha virtual.
Análise do Conteúdo: Estratégia, “Milícia Digital” e Vício Eleitoral
A transcrição do áudio fornece indícios contundentes do modus operandi da atual gestão e expõe práticas que afrontam diretamente os princípios da Administração Pública previstos no artigo 37 da Constituição Federal (Impessoalidade, Moralidade, Legalidade e Publicidade).
1. A Estrutura da “Milícia Digital” e Operação em Bloco
A locutora deixa explícito o mecanismo de ataque e defesa coordenada:
“Hoje, de noite, todo mundo, ó: vamos postar agora […] e todo mundo inunda as redes. Vai ser um choque pra oposição […]. É todo mundo junto na programação, todo mundo igual, porque vai ser a inundação, é o exército de Léo.”
A tática consiste no disparo em massa simultâneo (“inundação”) no Instagram (Feed e Stories) e grupos de WhatsApp para criar uma falsa sensação de apoio popular e sobrecarregar os algoritmos das redes. Além disso, a tática prevê reações imediatas a matérias de oposição e críticas de cidadãos:
“Geralmente postavam alguma coisa falando mal do Léo, na mesma hora nós íamos todo pro posto e todo mundo ia defender o Léo.”
2. Migração do Esquema: Da Câmara para o Executivo
A própria servidora confessa a continuidade do método, confirmando que a prática não é nova, mas sim a migração de um esquema montado quando Leonardo Vasconcellos presidia a Câmara Municipal de Teresópolis:
“Então aqui eu coloquei a maioria dos administradores, o pessoal que trabalhava comigo e com o Léo lá na Câmara. Nós fazíamos isso sempre, tá todo mundo acostumado a fazer […]. Esse povo todo que tá aí, que era da Câmara, que tá com o Léo agora na Prefeitura.”
Nomes de assessores e operadores do grupo são explicitamente citados no áudio como coordenadores do grupo de mobilização: “Vitória Jaqueline, Tiago, doutor Filipe, Rafael”.
3. Consciência do Desvio Eleitoral e Uso de pautas sociais
A gravação expõe ainda a ciência explícita de que a ação pode ferir a legislação eleitoral sobre propaganda antecipada ou abuso do poder político/econômico, além do uso de pautas como a misoginia para criar escudos morais contra críticas à gestão:
“A questão de candidatura ainda é muito cedo pra gente falar […] não podemos falar nem escrever nada, porque ainda não estamos no período de campanha. Então a gente tem que ter muito cuidado, né?”
“Temos que preservar a Cláudia principalmente […] porque ela já está sofrendo misoginia nas redes sociais, e é onde a gente vai ao embate.”
Análise Linguística e do Discurso: A Linguagem do Aparelhamento
Do ponto de vista gramatical e discursivo, a fala reflete a informalidade típica das articulações de bastidores politicamente orientadas. Destacam-se:
- Inadequações Gramaticais e Vícios de Regência: Uso reiterado de marcas de oralidade informal, como “pra oposição” em vez de para a oposição; contrutura sintática truncada como “nós estamos 112” (em referência ao número de participantes no grupo) e “nós íamos todo pro posto” (desvio de concordância nominal e regência).
- Emprego de Metáforas Militares: A utilização reiterada dos termos “exército”, “choque”, “embate”, “combater” e “levar porrada” explicita uma visão maniqueísta da gestão pública, encarando a opinião pública e a oposição não como parte do processo democrático, mas como território de guerra a ser ocupado.
O Que Diz a Lei e Quais as Punições Cabíveis?
A utilização de servidores públicos ocupantes de cargos comissionados para atuarem como cabos eleitorais e militantes virtuais sob coordenação da cúpula do governo pode configurar graves infrações legais:
| Possível Infração / Crime | Legislação Aplicável | Sanções Previstas |
| Improbidade Administrativa | Lei nº 8.429/1992 (art. 11) | Perda da função pública, suspensão dos direitos políticos e multa civil. |
| Crimes Eleitorais / Abuso de Poder | Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) e Código Eleitoral | Cassação de registro/diploma, inelegibilidade e sanções pecuniárias. |
| Peculato-Desvio (Desvio de Função) | Código Penal (Art. 312) | Reclusão de 2 a 12 anos e multa para quem desvia a finalidade do cargo público. |
As Perguntas que Exigem Resposta das Autoridades
Diante da gravidade das declarações contidas na gravação, o Jornal O Mirante de Teresópolis formaliza publicamente os questionamentos que a sociedade e os órgãos de fiscalização exigem ver respondidos:
- Destinação dos Recursos: O contribuinte de Teresópolis está pagando os salários de 1.200 cargos comissionados para prestar serviços essenciais à população ou para atuarem como “patrulha virtual” e fiscal de internet?
- Jornada de Trabalho: As ordens para postagens e “inundação” de redes sociais estão sendo executadas durante o horário de expediente pago com dinheiro público?
- Apuração do Ministério Público: O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) instaurarão procedimentos para investigar o desvio de finalidade dos cargos comissionados e o uso da estrutura pública?
Próximos Passos da Reportagem
O Jornal O Mirante de Teresópolis já deu início ao trabalho técnico de checagem: nossa equipe está cruzando os nomes de administradores e operados citados na gravação (Vitória Jaqueline, Tiago, Dr. Filipe, Rafael, entre outros) com a folha de pagamento do Portal da Transparência da Prefeitura e da Câmara Municipal.
Exigimos das autoridades competentes a imediata apuração dos fatos e a responsabilização rigorosa dos envolvidos. O espaço segue aberto para as manifestações oficiais da Prefeitura de Teresópolis, do prefeito Leonardo Vasconcellos e dos citados.
EXCLUSIVO: UM ÁUDIO VAZADO REVELA “MILÍCIA DIGITAL” PAGA COM DINHEIRO PÚBLICO NA PREFEITURA DE TERESÓPOLIS